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22
JAN
Caso Kaique - Vulneráveis, sim; acuados, jamais

Drisciminação Sexual

 Thales Coimbra














A morte do adolescente Kaique, descoberta na semana passada, comoveu a comunidade LGBT em São Paulo. Por se tratar de um garoto que compõe duas minorias vulneráveis (Kaique era negro e gay) e considerando as circunstâncias de sua morte (seu corpo foi encontrado desfigurado, sem dentes e com uma barra de ferro atravessada na perna), logo muita gente se convenceu de que estávamos diante de mais um caso de assassinato homofóbico.


Sejamos justos: não foi apenas a comunidade LGBT que se comoveu. Blogueiros independentes, portais de notícias e a grande mídia deram muita visibilidade ao caso, que foi destaque nas redes sociais durante toda a semana passada.


Na sexta-feira passada (17/01) foi realizado um ato no Largo do Arouche para relembrar a morte do garoto, dando visibilidade ao caso e cobrando uma apuração mais rigorosa da Polícia, que insistia em tratar a morte de Kaique como um caso de suicídio, o que chocou especialmente os defensores de direitos humanos.


Na terça-feira (21/01), porém, novas provas mostraram que, por mais difícil que fosse acreditar, a tese da Polícia estava certa: Kaique havia se lançado do Viaduto. Sua mãe confirmou a tese ao revelar ter encontrado mensagens suicidas no diário do garoto. Além disso, um porteiro relatou tê-lo visto caminhando sozinho na região em que foi encontrado o corpo às 4 da manhã, o que também foi comprovado por câmeras de segurança da região.


O caso, pelo visto, parece ter chegado ao fim e a Polícia estava certa. Não se tratava de crime de ódio e sim de um suicídio.


Com isso, nas redes sociais, há quem esteja acusando os defensores de direitos humanos de terem exagerado por não confiarem no trabalho da Polícia. Essas pessoas se esquecem, porém, que grupos vulneráveis têm motivos para tamanha desconfiança (como desenvolverei mais adiante). Além disso, tratam o suicídio como se fosse menos grave que um assassinato homofóbico, o que também é questionável. Afinal, em ambos os casos, estamos falando de vidas que são ceifadas em razão da violência - seja ela física ou simbólica (cultural).


Ao mesmo tempo, há quem ainda suspeite dessa "virada" no desenrolar dos fatos.


Entre uns e outros, estou entre aqueles que não conseguem parar de refletir silenciosa, mas apavoradamente, sobre os efeitos do "Caso Kaique". Quero compartilhá-las com os leitores desta coluna.


Primeiro, a morte de Kaique é o típico "não foi, mas poderia ter sido" e exatamente por isso foi tão difícil acreditar que ele, de fato, tivesse se suicidado. Um jovem negro e gay andando sozinho no meio da noite, sabemos, é um alvo fácil para ataques de grupos intolerantes, como skinheads, que perambulam pela Baixa Augusta e pela da Praça da República. Depois de tantos casos de violência homofóbica, é como se já estivéssemos preparados para automaticamente esperar o pior quando lidamos com minorias vulneráveis.


Segundo, chama atenção a desconfiança com que vimos o trabalho da Polícia no caso. Nossa desconfiança nessa instituição pode ser resultado de uma série de fatores, como os limitados recursos de que ela dispõe no combate aos crimes de ódio (há apenas uma delegacia especializada para todo o Estado de São Paulo, por exemplo); ou nossa cultura penal de superproteção do patrimônio em desfavor da proteção à vida; e a diminuta sensibilidade e formação da Polícia para a proteção de direitos humanos. Não acredito que estejamos diante de um problema localizado ou individualizado, mas diante de uma falha institucional - que, aliás, não é exclusividade do Estado de São Paulo.


Terceiro, a brutalidade com que supunhamos que o garoto Kaique tivesse sido assassinado criou um clima assustador entre as pessoas que frequentam o centro da cidade, com efeitos psicológicos de grandes proporções. Era comum, na semana passada, ver frequentadores da Vieira e do Arouche trocarem olhares de medo. Todos estavam ligeiramente assustados e vigilantes, como se a qualquer momento fosse surgir maisuma vítima de uma morte dolorosa. Amigos, familiares e colegas de trabalho frequentemente me pediam, por exemplo, para avisar quando chegasse em casa.


Até aqui, então, percebi que nós, LGBT, somos uma população vulnerável que não se sente bem protegida e que corre o grande risco de se fechar dentro de casa por conta do medo.


Não, não quero criar um clima alarmista, nem me apoio no senso comum. Pelo contrário, sou daquelas pessoas otimistas e considerado até "ingênuo" por meus amigos. Acredito, porém, que não podemos fingir que não vemos os efeitos dos crimes de ódio sobre nossa comunidade.


Para termos noção da seriedade do tema, há, inclusive, trabalhos acadêmicos a respeito dos efeitos dos crimes de ódio, como o de Gregory M. Herek e Kevin T. Berrill. Para eles, "crimes de ódio criam um clima de medo que pressiona gays e lésbicas a esconder suas orientações sexuais". Os pesquisadores afirmam também ser comum que alguns gays projetem suas inseguranças condenando aqueles mais libertos e expressivos por supostamente "colocarem todos em risco", um discurso que reforça nossa cultura heterossexista.


Apesar desse quadro desolador, não nos deixemos abater. Em momentos de insegurança, é importante lembrarmos que já vencemos lutas bem maiores em tempos bem mais obscuros, como nos anos 1980 com a epidemia do HIV/AIDS. Hoje, contamos com apoio institucional do Poder Público, com a empatia de setores liberais de nossa sociedade e estamos mais organizados que nunca. Já chegamos até aqui, agora não é mesmo a hora de recuarmos.







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